quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Hades o Profundo




Hades era o deus do mundo inferior, subterrâneo onde residiam os mortos e determinados imortais mitológicos.

Embora Hades parecesse sinistro e frio, não era considerado satânico ou maldoso. Era sim, implacavelmente justo e irrevogável em seus decretos, mas nunca foi inimigo da humanidade e nunca fez mal a ninguém. Seu império é tecido de sombras, frio, trevas e de todas as sensações pertinentes à uma depressão profunda, onde a pessoa é incapaz de visualizar ou agüentar a luz solar da vida cotidiana. Depressões são as iniciações ao reino de Hades, que é compreendido e analisado tanto na psicologia como na tanatologia (estudo da morte).

O domínio de Hades é o inconsciente individual ou coletivo, onde reside nossas memórias e sentimentos reprimidos, que não podem ser mantidos visíveis no mundo superior, assim como tudo que ansiamos em "vir a ser" e também tudo que já fomos.

O espectro da morte nos leva a presença de Hades. Mas aqui não falamos da morte física, mas sim da morte como ruptura de um relacionamento, de nossas esperanças ou de propósitos.

Entretanto, tudo que precisamos para nos tornar inteiros, encontraremos neste "Vale das Sombras". As sombras do mundo inferior são como os arquétipos, ou seja, são formas que precisam de energia vital, potenciais virtuais que aguardam virem à luz.

Hades é a força do inconsciente que só é valorizada quando se desce até lá. É ainda, considerado o arquétipo reprimido do Pai.



Hades, assim como Zeus e Poseidon, era retratado como um homem maduro de barba espessa e um olhar severo, muitas vezes com um capacete, presente dos Cíclopes, que possuía o poder da invisibilidade. Já quando era representado como um deus da riqueza, trazia consigo uma cornucópia ou chifre repleto de iguarias.

Quando sentado em seu trono de ébano ou de enxofre, portava um cetro negro, uma forquilha ou uma lança. Outras vezes, mostrava uma chave na mão, simbolizando que as portas da vida estão sempre fechadas àqueles que visitam seu império. Também já foi representado em uma carruagem conduzida por quatro cavalos negros.

Hades não teve filhos e segundo Homero, afastou-se de seu mundo inferior duas vezes. Sua única saída significativa ocorreu quando raptou Perséfone.

ARQUÉTIPO DA RECLUSÃO

Reclusão é a palavra de ordem do deus Hades. Ele vivia recluso em seu próprio mundo com as sombras.

O isolamento humano é uma fonte rica de criatividade que pode ser expressa por meio das artes, assim como pode nos levar de encontro à unidade. A reclusão de Hades, pode vir a ser a parte faltante em muitas pessoas que não sabem valorizar as oportunidades de serem introvertidas da maneira que este arquétipo possibilita.

O mundo atual, enfatiza a produtividade e não incentiva o isolamento. Contudo, a reclusão não precisa ser solitária, pode-se combinar as percepções subjetivas de Hades à visão da realidade objetiva de Zeus e à reatividade emocional de um Poseidon, aí sim, alcançaríamos a medida certa do bem viver.

O HOMEM INVISÍVEL

Hades se tornava um homem invisível quando se aventurava no mundo exterior se utilizando de seu capacete de invisibilidade.

Hades é o arquétipo que preside a vida interior sem emoções e sem palavras. Quando ele é o arquétipo dominante, resulta a invisibilidade social, pois a maioria das pessoas não possuem a capacidade de visualizar a sua riqueza interior e geralmente ficam desconfortáveis com sua presença.

NO MUNDO DAS SOMBRAS



-"Hoje não estou legal!". Esta é uma das frases que caracterizam uma das pequenas descidas ao reino inferior de Hades tão costumeiras no nosso dia-a-dia. As pessoas deprimidas sentem-se distantes e separadas de tudo o que tem significado para elas e é bem comum que a percepção da vivacidade e da cor perca-se e o mundo se torne literalmente tomado de sombras. Este tipo de depressão pode estar associado a descida até o mundo interno de imagens e vozes, onde nos confrontamos com as nossas sombras.

A psicologia junguiana nos esclarece que as sombras são todas aquelas partes de nós que são inaceitáveis ou dolorosas que podem ter sido soterradas ou reprimidas no nosso inconsciente pessoal.

O mundo das sombras, entretanto, também inclui elementos positivos que não vieram à tona e continuam nas sombras. Este material corresponde aos tesouros enterrados no plano inferior, associado a Hades.

A maioria das pessoas entram no reino de Hades de maneira involuntária. Mas há quem entre neste mundo voluntariamente. Dionísio, por exemplo, desceu até lá procurando sua mãe, Sêmele. O amor por sua esposa Eurídice levou Orfeu até Hades. Já Odisseu se aventurou neste reino buscando informações para achar o caminho de volta para casa. Mas as descidas voluntárias, são acompanhadas de grandes riscos, pois nunca existe a garantia do retorno.

Assim como na mitologia, na vida existem pessoas que podem descer e regressar aos domínios de Hades, assim como permanecer o tempo que necessitarem. Este é o caso dos psicólogos que precisam ser arquetipicamente vinculados a Hades para realizarem estudos profundos sobre a alma.

Só Hades é o arquétipo que torna possível ficarmos a vontade com o inconsciente.

QUEM É ELE?

Todo aquele que gosta de ficar sozinho, curte a privacidade e que não se importa muito com o que se passa no mundo, leva a existência de Hades.

O Hades "puro" é solitário e vive em seu reino interior.

O homem-Hades, é introvertido e geralmente alheio às regras de etiqueta e frivolidades. Não está "nem aí" com que as outras pessoas pensam dele. No trabalho se afina com tarefas repetitivas que lhe permitam certa exclusão. No amor, quando se apaixona vive experiências profundas com sua parceira e é somente ela que consegue arrancá-lo da toca.

Todo o homem-Hades tem predisposição para ser solitário e se sentir inadequado em um mundo muito competitivo, se recolherá para dentro de sua concha interior e para uma vida de esterilidade emocional. No mundo de Zeus, ele enfrenta muitas dificuldades, pois se sente inferior, um estranho no ninho. Fora de seu reino, verifica que só é recompensado todo aquele que atinge o topo, que adquire status, que se expõe e que corre riscos. Esta cultura extrovertida dominante é estranha ao homem de Hades, porque falta-lhe a ambição e a comunicação. A menos que desenvolva outros arquétipos, ficará à margem da estrada e só se encaixará em trabalhos que não ofereçam desafios, pois sua vida real é "interior".

Um Hades comete todas as "gafes" possíveis em reuniões sociais e diante de uma mulher. É natural, portanto, que muitas vezes seja rejeitado. A única experiência sexual do deus Hades foi com Perséfone que raptou e estuprou. A vida pode seguir o mito, mas o homem-Hades que se cuide, porque diferentemente de Zeus e Poseidon, ele tem menos credibilidade e poder e pode vir a ser denunciado e rotulado.

O casamento para este homem é crucial, pois sem ele será solitário e excluído. É através da esposa e filhos que irá relacionar-se com a sociedade. Como pai é sombrio, mal humorado, sem emoção e só espera de seus filhos organização e dever cumprido. Entretanto, pode compartilhar com as crianças o tesouro de sua vida interior.

O maior problema que um homem-Hades cria para os outros sendo como ele é, é que vive em um mundo"à parte", sem se dar chance de envolver-se emocionalmente com outras pessoas. O que se espera é que ele se comunique e nos conte o que acontece lá embaixo.

Amar alguém como Hades é bem difícil, pois a qualquer momento pode tornar-se invisível e inabordável. O melhor modo de um Hades crescer é combiná-lo com um Hermes, pois era através deste último deus que as imagens e as sombras do mundo inferior eram entendidas e comunicadas ao outros.

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